Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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A mesma silhueta



O olhar viciado já cansa de insistir. As mãos treinadas, a respiração já fraca. Às vezes, é como se a teimosia de gostar sobrepujasse as desternuras e os descompassos, enganando o destino com pequenos prazeres. A estratégia, por certo, reside em enganar a razão, dando os resquícios de lembranças criadas como subterfúgio à fantasia. À quermesse da mesma silheuta.

Nas mesmas noites temperadas de brasilidades. Pela cerveja gelada e pelos olhares que se cruzam discretos e despretensiosos. Ao final, sabemos que serão só olhares. Os passos se encontram, as luzes piscam no mesmo ritmo e os olhos, na mesma direção. A silhueta mexe no tom da música que toca, chamando a atenção de quem gostaria de conspirar no mesmo fervor. Na mesma batida. Na novidade da mesma silhueta.

No bar, os mesmo pedidos. As intempestividades de tantos corpos que, já entregues, debruçaram as esperanças nos últimos goles. Minha temperança enrubrecida compactua com a variedade ausente de quem se apresenta. Muitas se apresentam. Na confusão das sombras oblíquas, busco a mesma silhueta. De antemão, premedito a observância de estar entrelaçada com outras danças, outras meninas. Não há contratempo a quem procura diferente, mas já sabe o que vai encontrar. É apenas a mesma silhueta.

Amalgamada nos despreparos de uma noite que já prevê o desfecho das vidas que a frequentam, ilustro nas paredes dos lugares a fuga do meu olhar. Disfarçado e impuro. Malicioso e delicado. Ser tudo ao mesmo tempo talvez possa assustar. Não saber ser um pouco é quase um defeito à geração que já espera que as coisas venham mastigadas. Demorei meio segundo para sair do frenesi das indigestões sociais e deparar-me com a mesma silheuta.

Não há tempo para perder. Sinto sufocar as vontades rubras do peito. O desprezo, a rejeição. O propósito, por vezes, insere-se justamente na busca pelo improvável. Na repetição em busca de novas abreviaturas. Novos cenários. A mesma silhueta em outra realidade. O mesmo gosto depois de outras bebidas. O mesmo toque e o mesmo beijo, mas acessando memórias ainda desconhecidas. A única coisa que conheço é a silhueta.

 

THIANE ÁVILA.












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