Segunda-Feira, 23 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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A vitória chilena de Gabriel Boric



        Desde este período de ascensão da direita, em particular a extrema direita, vemos o mundo tendo guinado para uma realidade cada vez mais obscura, com problemas fortes nestes termos. Começou essencialmente perto de 2014, tendo ocorrido em vários países. Podemos citar exemplos internacionais, como algumas movimentações de extrema direita acontecidas na Polônia e Hungria, com Andrzej Duda e Victor Órban, respectivamente. Ambos fazem uma forte volta direita em seus países, fazendo com que se percam conquistas sociais, bem como direitos civis. Também fica mais forte o ambiente de intolerância, de repúdio a minorias. O exemplo mais gritante de todos, e sintomático, foi à eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, em 2016. Isto porque se trata do maior e mais influente país do mundo, para o bem e para o mau. Ter então um líder que flertasse com discursos autoritários e/ou de intolerância era um sinal de enfraquecimento, de cenários que significariam uma degeneração, uma queda para muitas coisas negativas, indesejáveis.

       Na América Latina, não foi tão diferente. Em momentos variados, ascensões de direita aconteceram. Nesta onda, em termos de América Latina, o primeiro a acontecer, foi à Argentina. Ainda antes do Trump, Maurício Macri foi eleito presidente, dando uma guinada à direita que o país não via fazia mais de uma década. Foi ele também o primeiro presidente argentino em décadas, de esquerda ou direita, a se dizer não peronista. Bastante privatista, ajudou a tirar do país uma série de benefícios sociais e programas, piorando ainda mais a delicada situação nacional argentina. O Peru passou por momento apertado, quase elegendo a neta de Alberto Fujimori, Keiko, em 2021. O sindicalista Pedro Castillo venceu, no final das contas. Em 2020, o país passara por intensa instabilidade, trocando presidentes após cinco dias no cargo. Todos de direita. Tendo se reelegido várias vezes na Bolívia, Evo Morales foi deposto por golpe em 2019. Exilado na Argentina, deu apoio político a candidatura a Luis Arce em 2020, o qual se elegeu. Está na Bolívia outra vez. No Brasil, após dois anos do vice presidente Michel Temer no poder, Jair Bolsonaro é eleito em 2018.

         O cenário passou efetivamente a mudar ainda em 2018. No México é eleito López Obrador, presidente de esquerda pelo PRI, que governou o país durante a maior parte do século XX. Após sua saída, a realidade nacional piorou muito, principalmente por causa do aumento do narcotráfico por causa da mal sucedida guerra às drogas, feita pela direita. O caos gerado gerou insatisfação popular contra a direita, fazendo com que o PRI voltasse ao poder em 2012. No caso argentino, após quatro anos de neoliberalismo macriano, que piorou a já delicada economia do país, Alberto Fernández, justicialista de esquerda, foi eleito, buscando outras medidas.

       O Chile, por sua vez, tem um cenário de complicação ainda maior. É o único país que não reescreveu sua constituição após o fim de sua ditadura. Além disso, foi o que mais aprofundou suas desigualdades sociais por causa das medidas econômicas adotadas, levando a graves problemas institucionais. A falta de um estado de bem estar social levou a muitas desigualdades e serviços de difícil acesso, sentidos até hoje na população. Portanto, o mito do desenvolvimento escondia uma sociedade muito problemática, cheia de contradições. E que nunca esteve de fato próximo de ser como os chamados países desenvolvidos, ficando atrás, pelo menos, de Brasil e México, nesta realidade da América Latina. Era, até então, governado por Sebástian Piñera, de tendências conservadoras e continuadoras do neoliberalismo chileno. Então estouraram protestos no país, contra seu governo, exigindo mudanças.

       Agora com a eleição de Gabriel Boric, as coisas podem mudar. Derrotou o ultradireitista admirador de Pinochet José Antônio Kast em segundo turno. Mostra que de fato as manifestações de 2019 levaram a resultados e a percepções dos problemas presentes na realidade. Para completar, com todos os projetos para uma nova assembleia constituinte, afastando a antiga constituição ditatorial, faria absolutamente nenhum sentido em se manter algum admirador do antigo regime. Dá pra se ver que os problemas chilenos têm finalmente chance de serem bem resolvidos. Será um país com menor problema de acesso a serviços e capacidade de se ter melhor estrutura.

      Sendo mais visível desde a vitória de Fernández na Argentina, e completado com a de Biden nos EUA, podemos ver uma queda da extrema direita no mundo. Tendo começado a surgir no início da década, atingido seu auge na metade pro final da mesma, parece encerrar um ciclo. Porque, com uma decadência econômica longa que vinha tendo, mais coisas ficavam visíveis, facilitando discursos de ódio vir a tona e ganharem força, gerando uma degeneração e um apodrecimento político que deu medo de que poderia chegar a níveis mais profundas. Uma série de questões menores entra junto neste processo, com suas respectivas forças, mas o enfraquecimento econômico piora as condições, levando a algumas decadências. Agora, apesar de não haver tão forte melhora, vê-se que está acabando. Vários países, muitos na América Latina, estão passando por este período. Chile foi um destes agora. O Brasil provavelmente será o próximo. Mais do que isto, a degeneração e o apodrecimento da política parece estar realmente indo para o fim, retomando os cenários que se teve na década de 2000 e começinho da de 2010. Não se pode dizer estar tendo uma renovação, muito menos uma revolução política, é um mais do mesmo de umas duas décadas atrás. Pelo menos fica melhor que o da maior parte da passada. E poderá trazer benefícios políticos e garantir melhores qualidades de vida e sistemas políticos econômicos. Para os chilenos e futuramente os brasileiros.

 

 

 












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