Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Antes de dormir



Ontem, antes de dormir, recostei minha cabeça no ombro de algumas lembranças e adormeci ao som da voz embargada que só ela tem. Quando escreve suas histórias, Elis acolchoa a solidão de seus olhos com a caligrafia mais despreocupada que alguém pode ter, confiando apenas às emoções a caricatura de seus sentimentos completamente expostos a quem lê.

 

Como de costume, ela embalou meu sono ao recitar um poema recém escrito, desvendando meus anseios com o simples gesto de tocar meu peito com a previsão de cada verso. Meu amor sempre esteve escondido em seus trejeitos, dissecando os detalhes dos textos em declarações tímidas de quem, a rigor, não sabe muito bem como falar. No fundo, não há o que falar. Amores preservados em caixas para não deixarem de ser amores. Ao fundo, a trilha sonora do tempo a embalar as estupidezes de certas ações.

 

O cenário dos seus olhos são fatias de domingos arrastados, daqueles que misturam os olhos com os sorrisos, e os beijos com os olhares. Sempre os melhores. A risada larga de Elis é o horizonte demarcado dos livres e sedentos de todo o tipo de experiência. Daqueles que apreciam uma corrida pela chuva e um sono demorado em cima de redes tecidas de memórias e saudades. O ritmo dos significados espalhados pelos ares é o que acontece de mais genuíno no curso das rotinas, pois nunca aparenta o que, de fato, representa aos protagonistas dos próprios sentidos.

 

Em manhãs de segunda, costumo reler o último texto deixado em cima do criado mudo ao lado da cama. Ele geralmente acorda com o silêncio comum das ressacas dos amantes. Um quase arrependimento por transbordar tanto e, sem nunca aprender, esvaziar toda a existência que o escreve. É a gratuidade de uma melancolia que não dá espaço a ressentimentos. Quem sabe, se eu não escrevesse, conseguiria lembrar mais os motivos para deixar. Poesia sofre de amnésia provocada pelas rimas, ainda que as rimas provoquem o retorno das memórias que, por tristeza, acionam a felicidade graças ao tempo ruim.

 

THIANE ÁVILA.

 












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