Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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Colorido apertado



   Atento aos fenômenos culturais de seu tempo, nos anos 70, ainda que sob forte repressão militar da ditadura da época, Belchior trouxe para sua música este contexto, falando sobre ele com seu talento, lhe interessando principalmente culturas contraculturais de origem estadunidense, manifestação cultural mais marcante da época. Ainda que tais manifestações, culturalmente falando, desafiassem tanto a ditadura brasileira quanto a democracia liberal burguesa estadunidense, conseguiu adquirir força e aparecer, Belchior, ao contrário de outros, não sofrendo nenhuma repressão política concreta, talvez por carregar os sentimentos de “Como nossos pais”. Agora, no entanto, irei falar de “Velha roupa colorida”.

   Usando, nos primeiros versos, de uma construção da ideia de que uma mudança em breve irá acontecer, uma que não se sabe nem vê, remetendo a imensidão da mudança e do sentimento que esta provoca, sintetizado na ideia de que o que era jovem e novo, hoje é antigo, necessitando de rejuvenescimento. Associado com a contracultura remete a ideia de Beatles e Bob Dylan, o primeiro falando de she`s leaving home, e o segundo like a Rolling Stone. Através deles, fala do envelhecimento dos movimentos e ideias culturais, pois nunca mais o pai falou she`s leaving home nem meteu o pé na estrada like a Rolling Stone, bem como nunca mais ele convidou sua menina para comer em seu carro, a qual também não mais saiu com o dedo em V, com o cabelo ao vento, um amor e flor, quero cartaz; o enfraquecimento daquela rebeldia, o até então jovem e novo envelhecimento, todos precisando rejuvenescer.

    Então, fala sobre o presente, o corpo e a mente diferentes, o passado uma roupa que não serve mais neste todo.

    Continuando esta ideia, se vendo num presente preso no apertado passado, faz como o louco poeta americano Edgar Allan Poe, fala com pássaros que nunca voam embora. No caso, são os passarinhos Black Bird e Assum Preto, sobre o que se faz. Black Bird lhe responde: tudo já ficou pra trás. Também canta junto haven never, haven never, ou seja, sem refúgio. E Assum Preto, o passado nunca mais.

      Cantando sobre esta velha roupa colorida, já apertada pelo tempo, Belchior consegue mostrar alguns envelhecimentos de ideias ocorridas na época, já segunda metade da década 1970, mesmo algumas de contestação nesta situação. É visível mesmo por se ter menos fé nos ideais contraculturais, um pouco a diminuição deles, muito também pelo contexto social, ainda que este começasse a se enfraquecer naquele momento. Busca respostas então com Black Bird e Assum Preto. Falando com seu jeito sobre o contexto, contextualizando-o de sua forma, identificando características, Belchior consegue compor intimamente sobre relações e formas da época, assim se marcando, mostrando as profundidades daquela velha roupa colorida.   

 

   

 












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