Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

Ver todas as colunas

Dos lugares que se vai quando não se tem pra onde ir



Na fresta da janela, na sombra que os pelos finos do braço fazem ou então na inundação que uma lágrima faz no exato lugar onde ela começa antes de escorrer pelos olhos. No espaço entre a frequência inaudível dos sons, sintonizada com o silêncio entrepausado pela brisa quase imperceptível de uma tarde de verão que passa por cima do asfalto quente. No calor derradeiro do sorvete tomado no inverno de agosto, que se mistura com o gelo que derrete a pele pela troca de sensações que falta a um e que o outro compensa.

Na culpa do silêncio que se engasgou pelo não dito ou então no barulho exagerado do sentido hoje amorfo de uma tempestade causada em copo d’água. No reflexo do espelho que mostra o avesso do que somos, entregando os amores que escondemos pelo medo de se partir ao meio de novo. Quem sabe então no meio das partidas dos amores que não foram, fazendo esquina traiçoeira com o movimento de quem tenta chegar, mas não vê jeito de se aninhar em peito ocupado com tralha que deixaram.

Dentro da pedra mergulhada na poça de água parada da noite da semana passada. Na beira do vidro fechado do carro que espera, na oficina, pelo chamado ao desmonte. No nó desgrenhado de cabelo cacheado que, como última alternativa, sucumbe à tesoura. Por entre os pedaços minúsculos de açúcar guardado no pote lotado de formigas. Dentro do tubo da caneta que guarda tinta seca, fadada à insistência dos riscos forçados no papel a molharem a tinta para ver se escreve de novo.

Em todos esses lugares, somados a lugar nenhum, meu coração desova em tempos de devassidão. Mas o que acontece, na verdade, é que esse coração habita a ponta do dedo, de onde pode gritar seus maiores tormentos, transformando em poesia de coisa nenhuma.

 

THIANE ÁVILA.

 

 












Dogus Comunicação

Sobre a Dogus Comunicação  |   Política de Privacidade  |   Receba Novidades  |   Acesse pelo Celular

Melhor Visualizado em 1200x900 - © Copyright 2007 - 2022, Dogus Comunicação. Todos os direitos reservados.