Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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Duas meninas



         As personalidades se afloram na vida. Mesmo na infância, ainda que, geralmente, falte uma consciência completa, inicia-se este processo. Ainda que exista forte influência de contextos socio econômicos, indivíduos possuem personalidades distintas entre eles. Capturadas de diversas formas, sob diversas interpretações, nenhuma outra autora capturou, de forma tão profunda, verdadeira e singela, as percepções de indivíduos humanos quanto a escritora pernambucana Clarice Lispector. Clarice, fazendo isso com diversas personagens, majoritariamente femininas, merece ter vista cada um destes pontos, uma vez que sempre demonstra forte sensibilidade artística e existencial. O caso deste texto, explorarei o apresentado no conto "Felicidade Clandestina", conto integrante da coletânea de mesmo nome.

         A história em questão, fala de uma personagem que gosta de ler. Conhece uma menina maldosa, mas que o pai é dono de uma livraria. Durante muito tempo, fica implorando para que empreste livros. Não apenas com a protagonista, mas também com outras amigas, faz torturas infantis e nunca empresta. Um dia, descobre ter, na livraria do pai, o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Aí começa a tortura chinesa. Passou um dia na casa da menina e pediu emprestado. Ela respondeu que, no outro dia, emprestaria. Até o dia seguinte, foi a esperança da alegria. 

         No dia seguinte, foi para a casa receber o livro. A filha do dono de livraria afirmou ter emprestado o livro. No outro dia, pegaria de volta. A menina continua esperançosa. Aí não parou. O plano da menina era secreto e diabólico. No outro dia, afirmou a menina, o livro ainda não estava em seu poder. O ciclo continuou. A narradora desconhece quanto tempo isto durou, a malvada sabia que era tempo indefinido, enquanto estivesse escorrendo o fel de seu corpo grosso. Ela já adivinha que queria vê-la sofrer, mas aceitava. Ia todo dia, nunca recebia. Até que, um dia, sua mãe apareceu, já devia estar estranhando a aparição muda e diária da menina. Pediu explicação. Após uma confusão silenciosa, a mãe entende e pega o livro , que nunca havia saído. Devia estar horrorizada com a descoberta da perversidade da filha. As espiava em silêncio. Após se recuperar, disse para a filha emprestar o livro e que a narradora podia ficar com ele quanto tempo quisesse.

        Sentiu-se estonteada com o livro na mão. Saiu com o livro e, ao contrário das outras vezes, saiu caminhando bem devagar. O peito estava quente, o coração pensativo.Não o leu imediatamente,fingiu que não o tinha. Após algumas horas, lê algumas linhas, o fecha de novo, vai passear pela casa, come pão com manteiga, fingiu que não sabia onde guardou o livro e o abria de novo. Inventava dificuldades para aquela felicidade, que era clandestina. Todas as felicidades iriam ser clandestinas. Demorou. Se sentava na rede, com o livro aberto. Dizia não ser mais uma menina com seu livro, mas uma mulher com seu amante. 

        O conto, tendo presente as características de Clarice, apresenta estas meninas. Ambas vivem em um mesmo contexto, embora a filha do livreiro seja, segundo a narradora, mais baixa e feia, possuem personalidades diferentes. Se, em partes do conto, surge o conflito entre elas, deixa mostrar o que ocorre em seu relacionamento, cruzamento de personalidades. Mostra também suas personalidades em momentos mais sozinhos, mas apenas sob o ponto de vista da narradora, a qual conhecemos com maior profundidade, ainda que esbocemos a da malvada. O interessante do conto é perceber personalidades latejantes, mostrando aspectos dentro de um contexto. 












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