Segunda-Feira, 4 de Julho de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

Ver todas as colunas

Espíritos fueguinos



      No longo debate entre ciência e religião, bem quanto à relação entre as áreas, muito já foi dito e debatido. Alguns entendem que a religião esteja em franca decadência, sendo cada vez mais desmistificada e desmentida. Isso se deveria ao aumento das descobertas científicas e se estar contrariando afirmações religiosas. Também pode a religião tomar várias dimensões, culturais, políticas e até algumas questões científicas, influenciando as mesmas. Em todo o mundo, um dos encontros mais curiosos entre ciência e religião aconteceu na Terra do Fogo, no sul da Argentina.

      Este é oficialmente, o lugar mais austral permanentemente habitado. Caso pegue um barco na Terra do Fogo e dê a volta ao mundo, não encontrará terra até chegar novamente a Terra do Fogo. Também o local habitado mais próximo a Antártica, continente inóspito. Por isso, foi bastante inexplorada pelos espanhóis durante os séculos de colonização da América Latina, embora soubessem que ali existia. Mas não viam grande utilidade em explorar.

       Tanto que índios da região chegaram ao século XIX praticamente intactos, sem grandes contatos com brancos europeus. Podem ser destacados os Selknam. Uma região com fortes variações de temperatura, e com frios muito intensos, não despertava interesses de exploração nos europeus. O que fazia com que esta etnia não tenha sofrido os processos de colonização antes de 1800. Os que ficavam mais ao norte do continente americano, sofreram os processos de dizimação muito antes. Da região de Buenos Aires até o Canadá. 

        A situação começou a mudar na época citada. Neste período, a região fazia parte do Vice Reino do Prata, uma enorme região da América do Sul, que pegava toda a Argentina, o Paraguai, Uruguai, quase toda a Bolívia, as ilhas Malvinas, uma pequena parte do Chile e pequenos pedaços do Brasil. A capital era Buenos Aires. Durante o período napoleônico, devido a desentendimentos entre Espanha e Inglaterra, a primeira se negava a ajudar os britânicos contra Napoleão. Contra isso então, decidiram atacar importantes regiões coloniais espanholas.

        Buenos Aires era uma dessas, levando a ser invadida pelos ingleses em 1806, que tinham como meta dominar e pegar a cidade, prejudicando a Espanha. Nesta expedição, conseguiram o controle, apesar das resistências, hasteando a bandeira inglesa. Durante 45 dias, tiveram esse domínio, quando a população local, fortemente ajudado pelos exércitos espanhol e francês, se prepararam para expulsão, que acontece após esse período. Em 1808, tentaram novamente, fracassando. Nestas vezes, os argentinos conseguiram capturar bandeiras britânicas que ficaram para trás na expulsão. Foram doadas para o convento de Santo Domingo, ainda estando lá. São troféus de guerra argentinos atualmente.

     Então a Espanha concordou ajudar ingleses para parar Napoleão. Relações se acalmaram, mas foi iniciada a independência Argentina. E das outras regiões do Vice Reino. A região sul era muito pouco explorada, com os Selknam e outras etnias praticamente intactas. Nisso, os países foram conseguindo independência e a Inglaterra se apossou das inabitadas ilhas Malvinas, a qual mantém sob domínio da coroa até hoje.

     Neste processo de domínio, teve o interesse em estabelecer possesões coloniais na parte continental da América do Sul, para ir além da Guiana. Por serem próximas as ilhas, a Terra do Fogo era um local bom para se começar. Devido a pouca exploração do local, a maioria dos habitantes era indígena, que não queriam perder o lugar, fazendo resistência.

     Nisto, uma série de medidas foram feitas pelos britânicos. Uma delas foi a tentativa de assimilação destes nativos a cultura inglesa. Primeiro, por via científica. Pegaram dois índios fueguinos em barco e levaram ao Reino Unido para ensinar a vida na civilização e ciência, acreditando que não a tinham por causa de estarem sem contato. Lá, eles ficaram alguns anos, aprendendo os hábitos. Então foram levados de volta, no mesmo navio onde viajava Charles Darwin, que viu a Terra do Fogo e estudou. Os índios, por sua vez, voltaram aos hábitos que tinham.

     Para garantir à posse colonial, sem necessariamente matar os indígenas, a coroa resolveu fazer a moda antiga, pré cientificista: mandar missionários para viver ali e catequizar os nativos. No caso, missionários anglicanos, a igreja oficial do Reino Unido. Assim, se criariam fortes laços e seria possível a posse local. Devido à inexistência de brancos morando ali permanentemente, ficou bastante fácil essa dominação.

      O principal nome para servir ali foi o pastor Thomas Bridges, que já havia servido nas Malvinas por 20 anos, onde alguns índios eram levados para anglicanização anteriormente. Foi escolhido por já ter experiência e ter muita simpatia dos fueguinos, falando fluentemente seus idiomas. Serviu na Terra do Fogo a partir de 1871. Bridges traduziu do idioma inglês para idiomas locais alguns dos livros da Bíblia, montando missões. Foi o primeiro branco a viver ali permanentemente, junto com a família.

     Mais tarde, o governo argentino mostrou interesse em reivindicar a Terra do Fogo, mandando alguns barcos para lá. O acordo feito foi que a missão continuaria e os habitantes britânicos continuariam ali. Bridges aceitou, transferindo a possessão dali, fazendo dela a mais austral província da Argentina. Também recebeu cidadania argentina por isso. Acabou largando a atividade missionária pouco depois, fundando uma estância, Harberton, com o nome homenageando a cidade natal da esposa. Ali viveu até o fim, criando gado e ovelha. O governo argentino investiu na urbanização do local, atraindo mais gente, e criando também a cidade de Ushuaia. Poucos anos depois da transferência, houve uma corrida do ouro no local que enriqueceu o país, mas terminou dizimando os índios que ali viviam, apesar de Thomas Bridges ter tentado salvá-los sucessivas vezes.   

      Num século famoso por embasar o cientificismo moderno, é bastante curioso ver esse processo baseado ainda em questões religiosas. Termina sendo não apenas uma prova de que os espíritos têm ligação com a religião, como também que a ciência possui limitações. O jogo e interações étnicas e espirituais ali , bem como todos seus problemas, mostra profundamente como cada um era. E o que se formaria. Vemos a religião influenciando questões e jogos, ao passo que significa para quem faz. Anglicanismo ferramenta britânica, apesar de todo o darwinismo e cientificismo. Por essas e outras, vemos que como religião e ciência não apenas não se excluem como também são usadas em momentos bem próximos.












Dogus Comunicação

Sobre a Dogus Comunicação  |   Política de Privacidade  |   Receba Novidades  |   Acesse pelo Celular

Melhor Visualizado em 1200x900 - © Copyright 2007 - 2022, Dogus Comunicação. Todos os direitos reservados.