Segunda-Feira, 4 de Julho de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Essa mania de colecionar fragmentos de qualquer coisa



Quanto mais perto chego das circunstâncias, mais inevitável se torna levar um pouco delas comigo. Fazer delas um pouco de mim. Ao contrário do que muito ouvi durante a vida, não sou inclinada a colecionar grandiosidades. Talvez pelo valor longe da sensação na pele, do frio na barriga e da paz de espírito. 

Colecionar fragmentos de qualquer coisa leva a memória longe, cocriando as possibilidades inerentes ao acaso. No caminho, vou debruçando minha cabeça em confianças duvidosas, que nada têm a ver com as amostragens de certeza que, desde sempre, a sociedade se esforça em nos vender. Felizmente, eu nasci com um parafuso desajustado na cabeça, potente para me colocar fora do eixo e eficiente para apontar trilhos inesperados.

Ao longo do caminho, vou colocando os apetrechos acomodados ao longo do corpo, evitando concentrar tudo nas costas, pois essas já são proteção para as bagagens recusadas. Essa sentença de fazer dos ombros o armário das lembranças doídas ainda vai mudar definitivamente nossa postura, alterando os ângulos dos olhares e as vontades por entre as brechas de sentido.

Quando criança, eu tinha a mania de colecionar pensamentos. Histórias bonitas em desenhos abstratos e legíveis apenas para mim. Com o tempo, essa coleção virou tralha, exigindo muito esforço das atualizações de quem fui me tornando. Os ombros acionaram a rotina para oferecer o leito, mas já estavam cheios demais pela minha desatenção. O acúmulo, tenho para mim, é uma mera rotina da distração. Sem percebermos, vamos enchendo de desnecessidades nossas prioridades, ao passo que as importâncias vão tomando um rumo distante dos nossos olhos e, por consequência, do coração.

Por essas e outras, desde sempre, esforço-me em colher a ameaça dos significados. O mais imponente dos detalhes invisíveis, apto a passar desapercebido pelos olhares mais atentos. Treinar os sentidos para o oposto das expectativas é de uma libertação esmagadora, pois não deixa nada de importante para trás, embora deixa a maior parte das coisas pelo caminho. Esse é um sintoma importante, que mostra a qualidade do que faz da nossa essência.

Eu ainda coleciono tralhas desimportantes. Lixos mentais capazes de ocupar dias de pensamentos e distrações. Para aliviar essas aglomerações mentais, eu contorço o meu cérebro num exercício difícil de desapego e confronto. Um enfrentamento legítimo e quase nada racional das sensações. A propósito, essa mania de pensar demais é uma das coleções mais perigosas que aprendemos a fazer ao longo da vida.

 

THIANE ÁVILA.

 

 

 












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