Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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Fatos silenciosos



       No conto de Mark Twain "Minha primeira mentira e como me safei dela" um narrador não identificado, possivelmente Samuel Langhorne Clemens, conta qual foi. Inicia dizendo que desconhece qual foi sua primeira, mas lembra perfeitamente da segunda. A primeira verdade seria muito mais fácil de lembrar. 

       A mentira era tão simples quanto justa. Foi contada a um amigo em uma viagem de ônibus na Inglaterra. Disse que tinha contado esta mentira, mulata, modificicada, segundo ele. No ano anterior, passando por uma dificuldade na Áustria. Foi solto pela polícia ao dizer que era da mesma família do príncipe de Gales. Pediram desculpas, mostraram-se bondosos, complacentes e corteses, tudo lhes parecia pouco perante ele. Até prometeram enforcar o soldado que lhe prendera. Pediram que esquecesse o ocorrido, nenhuma palavra dissesse a respeito. Podiam confiar nele, respondeu-lhes. O amigo do trem não entendeu o porquê daquela mentira ser modificada. Disse que porque dissera ser da mesma família do príncipe, não da família real, logo da família humana. Um pouco de sagacidade teria feito os policiais perceberem. 

      Sendo um caso tão simples, o mais interessante deste é a maneira como é vista a mentira e a verdade. Não nega a divisão entre os conceitos, mas como as mentiras se tratam de algo presente no mundo, e somente as pequenas perturbam as pessoas. Os pequenos atos de cada um as faziam se sentir ruins, as grandes não. Pequenos eventos do dia a dia pareciam grandes mentiras, algo reprovável da parte de quem fez; este tipo todas as pessoas comentam quando acontece. Mas isto não acontecia com as mentiras silenciosas, aquelas não faladas. O narrado exemplifica com alguns casos. Quando a escravidão era legalizada, se justificava como algo bom. Ninguém se sentia mal com tal mentira, nem mesmo falava. Era silenciosa. 

      As duas formas de mostrar o que ocorreu ou não, entrelaçadas com intenções, a mentira e a verdade, podem ser faladas ou veladas. Quando veladas as mentiras, parecem se tornar autênticas por não serem comunicadas, se confundindo com a composição da sociedade, por ser parte do processo. Estranhamente, sendo parte social tão comum, causam tanto desconforto ao serem pequenas, coisas individuais, mesmo quando este iria ganhar com ela. A falta de sagacidade os faz ter de mentir, quando poderiam simplesmente contar, em forma curta, uma verdade complexa. 












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