Terça-Feira, 17 de Setembro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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O Buraco da Janela



Em nossa antiga casa havia uma janela com um buraco. A janela era de madeira. Uma janela simples. Tudo era simples. O buraco ficava na base, no encontro da janela com a batente. Parecia ser estratégico: meu pai olhava amedrontado para o bravo tempo de chuva, eu olhava para as pessoas que chegavam na casa da minha avó. Como eu gostava de ficar a maior parte do tempo dentro de casa, o buraco meio que se tornou um portal para a vida externa. Eu podia observar tudo. Como na maioria dos dias fazia sol, meu pai pouco usava. Lembro-me da minha mãe usar apenas uma vez. Ela observava uma grave discussão entre minha avó e meu avô. Minha avó tinha depressão aquele tempo. Ela batia em meu avô e matava galinhas pelo prazer de ver seus pescoços descarnados e sangrando.  Tudo isso passou. Hoje ela está bem e prepara galinhas ao molho maravilhosas. Mata por necessidade para o prazer do restante da família.

Uma vez observei pelo buraco a chegada de um mendigo. Ele não se vestia como um mendigo, mas apresentou-se como um mendigo viajante. Disse que vinha de Londrina. Percorreu todo o caminho a pé. Isso dava mais ou menos uns 800 km. Essa foi a história que ele contou para minha avó. Essa foi a história que minha avó contou que ele contou.  Essa foi a história que eu achei quase impossível de ser verdade.

Vi a vovó dar um enorme pão caseiro para ele. Ele pôs no saco e partiu. Talvez de volta para Londrina ou em direção à um outro sítio, em busca de manteiga.

Certa vez uma professora da minha prima também apareceu. Lá estava eu no buraco a observar. Ela era branca. A maioria das pessoas da cidade eram exageradamente brancas. Isso dava a impressão de que carregavam certa falsidade consigo.

Ela falava bem e parecia feliz. Esforçava-se para isso. Todos que a receberam na casa da minha avó demonstravam um apreço desnecessário e nojento. Era apenas uma visita. Provavelmente ela pegaria algumas laranjas e poncãs e nunca mais voltaria. Os idiotas da cidade sempre gostaram dos cavalos, das represas e das frutas.

Todo mundo insistiu para que eu fosse lá e a cumprimentasse. Eu, obviamente, me neguei. Tinha muita vergonha também. Não me sentia culpado por ser assim.

Poucas horas depois ela se foi. Anos depois, quando eu já estava no colégio, ela foi a minha professora de matemática (ou ciências). Certa vez, enquanto ela corrigia alguns exercícios para um grupo de alunos em sua mesa, eu comecei a tossir. Eu não parava de tossir. Ela disse: “Ei menino, saia daqui antes que você passe essa doença pra gente!”

Arrependi-me de, naquela oportunidade em que ela esteve no sítio, de falar com ela e dar o seguinte recado: “Eu moça, saia daqui e nem pense em tocar nas laranjas e poncãs!”

Assim o tempo passou.

A depressão da minha avó continuou por algum tempo, mais algumas pessoas estranhas visitaram o sítio, vários vizinhos também (não menos estranhos). O tal do El Nino fez com eu dividisse o buraco da janela cada vez mais com o meu pai.

Minha mãe estava grávida e não tinha tempo para isso.

Logo o meu pai descobriu que tinha câncer e trocou o medo da chuva pelo interminável vômito noturno.

A última lembrança que tenho desse período é uma foto em que estão meu pai (careca, devido à quimioterapia) e minha mãe com meu irmão recém-nascido no colo. Eles estavam sentados no sofá velho e, de plano de fundo, aparece a janela mofada e o buraco.

Sempre achei aquela foto a descrição mais óbvia do que é felicidade e tristeza.

Pouco tempo depois nos mudamos. Fomos para a cidade.

Tive medo de embutir-me naquela aparência branca e falsa.

Nossa antiga casa guarda galinhas, mantimentos e minha coleção de latinhas de cerveja. Dói ver sua velhice. O buraco e janela continuam lá. Sem observadores.

A nova vida trouxe ironias. Agora temos que comprar as laranjas e poncãs. Quase não vejo cavalos e não nado em represas.

O que jamais voltei a ter foi uma janela com buraco.

Tive que encarar as pessoas e o mundo.

Descobri que em ambos não há janelas. Apenas buracos.

 

 

 

 

 

 










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