Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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O caso da Páscoa



  As taras humanas podem atingir muitas formas, bem como se manifestarem em vários tipos de pessoas, criando ou complementando características pessoais muito fortes, muito marcantes. Sendo uma profunda parte de cada Eu, pois se relacionam com inúmeras características de cada um, revelando traços, culpando e aumentando fatos, serve sempre para conclusões, interpretações, daquele que as tem e das que as pessoas têm, em contextos vários e diversos. Um dos aclamados escritores brasileiros vivos, o curitibano Dalton Trevisan, tem este tema em seus inúmeros e sucintos livros. Na sua mais aclamada e conhecida obra, coletânea de contos “O vampiro de Curitiba”, tem no personagem Nelsinho alguém extremamente tarado, narrando seus casos e histórias. Falo aqui sobre o último, “A noite da paixão”.

 Corria ruas atrás da última fêmea. Nelsinho não achava uma dona em marcha vagabunda, os bares apagados. Esbarrou com dois vultos e pôs as mãos nos bolsos. Fora apalpado, chamado de bonitão, perguntado para onde iria. Os dois chamariam qualquer um de bonitão.  Dobrou a esquina com a pracinha do bebedouro antigo, onde estavam as mariposas?

 Igreja quase deserta, ele avançou. Arriado de sua cruz, estava o velho Cristo. No banco, duas ou três megeras de véus pretos. Uma se prostrou no cimento, beijo amoroso na chaga do pé. Nelsinho deixou cair a menor das notas na bandeja. Espreitado pelas guardiãs do defunto, completou o giro, sovina de beijo. Observou e reprimiu a imagem pavorosa. Culpou o Senhor por todos os bordéis fechados. Achou a pomposa boneca de caixinhos. O Senhor falava de sangue e não sangrava, as viúvas nem espantavam as moscas pousadas na ferida aberta.

  O escândalo das beatas, se inclinou sobre a visitante com traje de couro, beijou seus pés trespassados. Não olhou para Nelsinho. Eram os escolhidos. Perguntou nos degraus do templo aonde iriam. Ali na esquina respondeu ela. Desceram os degraus. Ele indicou um casarão decrépito. Contou que ali morava uma grande paixão de sua vida, Marta. Ela perguntou se fora bem de Páscoa. Ele disse que não, ainda era sexta-feira. Eram       quase 11. Os quartos estavam reservados por meia hora.

  Foram para o quarto número 9. Ela, tendo revista de fotonovela confiscada pela dona, ficou triste. Escondia o rosto até o sorriu, amorosa. Viu que era banguela, sem os dois caninos. Para esconder a perturbação, foi fechar a porta. Ela veio ao seu encontro, envolveu-o com seu couro úmido e carne rançosa. Que seria dele pensou? Na esperança de ganhar tempo, perguntou se não tinha medo. Ironizou falando dele. Disse que era castigo do céu, a noite santa. Disse ter pedido perdão pelos pecados. Ele, para não mentir. Quanta vez entrara e saíra à caça de homem? Deus me livre, disse.

  Agarrou-lhe a cabeça. Disse ser tão mocinho, lábio grosso de mulher, sobre beijar sua boca. Retrucou que se fosse o diabo, atraísse para perder a alma. Quis saber que conversa era aquela. Os olhos frios e perversos, perto de se incendiar de fúria assassina. Sem salvação, agora era apagar a luz. Queria morder-lhe, sugar o sangue. Sentada em seus joelhos, vestida, disse que tomasse e comesse, era o seu corpo. Perguntou se era amigo da Joana. Nem dela ou de Suzana. Então seria dela. Nelsinho abriu-se em sorrisos. Voltou a cavalgá-lo. Perguntou, depois, o que queria que fizesse. Quis que tudo. Ficou na dúvida. Tudo que sabia, completou.

   Desabotoou a camisa, riscando as unhas. Perguntou se queria apagar a luz. Pediu que não. Enquanto procurava a abotoadura que pensava ter perdido, ela perguntou se ela não esqueceu. Percebeu que ainda não a pagara. Deu a nota, ela escondeu no casaco e arrancou o suéter. Admirou a imagem grotesca do poder e da glória na frente do espelho. Perguntou se tirava tudo, ele respondeu que sim. Subiram na cama, enroscou-se em seu corpo, que fosse feita a vontade dele, e não a dela, enfiando a língua em sua orelha.

   Vendo-o deitado grudou a boca em seu peito, lambendo as maminhas. Aquilo que era mulher, pensou. Após carícias, entendeu que o preparava para o sacrifício. Tentou fugir. Após brigas, roladas e tentativas, foi embora sem se despedir; ela ainda não envergara a primeira peça de couro.

  As badaladas do relógio da torre rasgavam o silêncio de alto a baixo. Nelsinho suspendeu o passo, a terra tremendo a seus pés. Declarou que era inocente, para seu Pai.

  Nelsinho, tarado compulsivo, teve esta aventura de sexta-feira santa, tendo seus sentimentos, sentidos principalmente, aflorados. Sentiu todas as sensações, teve sua tara atingida em cheio por ela, levando ao inverso, aos sentimentos de falso bom homem casto, respeitoso e temente a Deus. Tocados por eles ao fim, saiu, sentindo arrependimento divino, sentindo o contrário do que é. Fora muito tocado pela noite, pela data, pela mulher, que acusou de desejos. Fora trespassado, quase que empalado pelos desejos da época de Páscoa.












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