Terça-Feira, 17 de Setembro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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O Fantástico Comprador de Chocolate



Nas curvas de nível da plantação, quebrava as placas de terra que se formavam quando a chuva ia embora. Elas pareciam grandes barras de chocolate.

Voltava correndo, canelas secas e pés descalços a todo vapor. Carregava duas ou três delas nas mãos.

Meu avô esperava na escada da porta da sala. Ele comprava minhas barras de chocolate.

Seu sorriso rústico e o tapinha nas costas indicavam que a negociação havia sido um sucesso.

Como acontece com a maioria das crianças, recebi minha primeira quantia em dinheiro de meu avô. Seja na venda do chocolate, seja no bingo que ele se esforçava em perder pra me ver feliz por ganhar.

Também fui protegido com os “deixa pra lá, esquece isso” dele quando meus pais vinham para o acerto de contas.

Muito recebi de meu avô.

Pouco pude dar em troca.

Sei que o convívio e toda a alegria dos momentos faziam parte da mecânica condição de quem foi criança. Não, isso não é ruim. Está longe de ser ruim. Mas eu queria ter feito mais.

Nos últimos meses, seu pulmão estava dilacerado pelo cigarro.

Aos domingos, subíamos a velha estrada de pedras do sítio em direção ao boteco. De cinco em cinco minutos ele parava por causa da falta de ar.

Bata nas costas do vô, ele pedia. Dessa vez o tapa nas costas era meu: ritmado e forte.

Ele melhorava, mas sabia que estava em uma rasa trincheira protegendo-se de um exército que vinha com tudo.

No boteco, jogava truco. Atividade sagrada. Arte passada para meu pai, tios e,  que mais tarde, passariam para mim.

Tirava uma bituca do bolso da camisa. Tentava disfarçar com a agilidade das mãos. Fumava desconfiado. Como se fosse vergonhoso sucumbir ao vício.

Todo mundo via. Ninguém falava nada. Uma mistura dolorosa de respeito e pena.

Não foram muitos domingos até que a rotina do hospital começasse. Era sempre um alívio quando do alto da curva de nível, via a Brasília vermelha trazendo-o de volta.

Ia direto para o quarto.

A porta era uma cortina feita de lençol. Um escudo pateticamente fraco que permitia que toda a casa, todo o sítio e nossa alma ouvissem o suplício das dores, dos gritos e dos escarros.

Os dias cinzentos e frios de junho haviam chegado. Sem mudança na situação do meu avô. Eu não entendia porque ele voltava do hospital e continuava tão ruim daquele jeito. Tinha medo de perguntar pra minha família assim como acho que eles tinham medo de me dizer.

Certa noite, acordo após sentir meu ombro sendo chacoalhado repetida e desesperadamente por uma mão.

Acorda filho, o vô morreu. Assim disse minha mãe.

Quando meus ouvidos tomaram consciência do que ouviram, os olhos já haviam sido invadidos por uma imagem aterrorizante. Meu pai, inconsolável, chorava perto da entrada do meu banheiro.

Foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Foi a primeira vez que havia perdido alguém.

Os dias cinzentos, frios e tristes de junho definitivamente haviam chegado.

Passei aquela madrugada, manhã e tarde seguintes como um espectro, caminhando disfarçadamente pelo sofrimento das pessoas.

Lamúrias precedidas de abraços. Ou o contrário.

Ouvindo histórias sobre meu avô. Ouvindo histórias que meu avô contava.

Na igreja, frente ao caixão, não pude ver seus olhos verdes. Beleza tirada pela inevitabilidade da morte. Seus cabelos, parcialmente ondulados, tinham uma preciosa mistura de branco e cinza. A barba estava feita, contrariando o seu gosto.

Atônito, não disse as tão habituais palavras de despedida.

Frio, não derramei uma lágrima sequer.

Talvez a mecânica condição de ser criança tivesse me feito pensar que tudo era uma brincadeira de mau gosto.

No dia seguinte jogaria bingo com meu avô. Após a próxima chuva, venderia chocolates para ele.

Hoje, me despeço em cada oração.

Hoje, choro por não ter chorado.

Mas eu sei que isso não é nada.

Muito recebi de meu avô.

Pouco pude dar em troca.










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