Terça-Feira, 2 de Junho de 2020

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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O miador



   O escritor argentino H.A Murena foi autor do conto “O gato”. Por seus toques fantásticos, uma história com elementos incomuns,  foi incluído o conto na clássica coletânea dos consagrados autores argentinos, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, a “Antologia da literatura fantástica”. Não tendo elementos absurdos, irreais, mantém o fantástico pelo falado, o cercado ali, uma abordagem incomum do vivo, do entendido.

  O gato do outro, daquele momento em diante, passou a segui-lo com certa indiferença, quase pacientemente ante suas tentativas de espantá-lo. Se tornou sua sombra.

  Foi para uma pensãozinha, não muito suja nem desagradável, o gato lhe seguia. Lá, ninguém gostou dele e, com a autorização do dono acidental, o colocaram para a rua. Mas ele sempre voltava, não se sabia como, e ia para a cama do dono. Até que venceu a dona da pensão, ficando ali.

  Ele saía muito no começo; era como se aquele quarto fosse insuportável para ele. Voltava ainda mais inquieto. Andava pelas ruas esperando que o mundo lhe desse de volta uma paz proibida. O gato nunca saía. Nem mesmo na hora da mulher limpar o quarto. Nestas horas, ia indo para um lugar seguro. Talvez temesse que aproveitassem a situação para expulsá-lo de novo, ou talvez fosse mero reflexo de seu instinto de comodidade. Decidiu imitá-lo para forjar uma sabedoria que, no animal, era medo ou indolência.

  Consistia em se privar das saídas matutinas e depois das vespertinas. Apesar dos sofridos surtos, conseguiu. Lendo um livrinho de capa preta que trazia ou andava no cômodo horas a fio. O gato mal lhe olhava, se contentando em dormir, comer e se lamber. Após uma noite com preguiça de se vestir, não saiu. A partir daí, foi extremamente fácil para ele, como se fosse um cume do qual não precisava mais descer. Começou a ver grandes complexidades ali dentro. O gato permanecia sereno em sua poltrona.

  Um dia, ouviu vozes de mulheres atrás da porta. Não entendeu as palavras, mas o tom lhe bastava. Sentia como que um estímulo muito distante mas imensamente forte, sabendo que demoraria horas para reagir. Porque uma das vozes era da dona da pensão, a outra dela, que vinha procurá-lo. Queria fazer algo e não conseguia. Fitou o gato, que fitava a persiana, estava muito calmo, o que aumentou sua sensação de impotência. O corpo latejava, as vozes não paravam, tinha a sensação ia se desmanchar quando cessasse. Mas queria fazer alguma coisa. Então miou, agudamente, com infinito desespero, miou.

  Naquela pensão, viveu profundamente as próprias características. Cercado pelo gato e pelas situações, viu o mundo dentro do lugar, especialmente após não querer sair mais. O felino vivo e um tanto indiferente, apesar de unido, o complementava a situação, sendo uma das poucas coisas vivas à sua volta. Estava ali, passando por tudo. Até que miou no final.










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