Terça-Feira, 17 de Setembro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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O Pior Amigo do Cachorro



Sentado.

Dia começado de um cara acabado.

Olhando e contando os calos que retornaram à minha mão. Bolhas passageiras também.

Depois, cabeça baixa.

Um jogo imaginário de ligue os pontos com os flocos sebentos de caspa que caiam na calça preta.

A língua percorria o lábio inferior e trepidava na bagunça feita pelo recente frio.

Meias e botinas esgarçadas. Os pés, paraíso delirante dos fungos, tinham espaço suficiente para uma volta e meia ao mundo.

Do outro lado, jardineiros, pedreiros e faxineiras disputavam cada centímetro de um banco. Esperavam pela desconfortável, barulhenta e empoeirada carruagem matinal. Por que não infernal?

Também a caminho do ponto de ônibus, alguém passa com um daqueles pequenos rádios. Cantarolava sua própria versão de Sacrifice, do Elton John: “Saturday niiiiiiiiiiight...”. Atravessa a rua com sua inacreditável empolgação.

Durante o curto tempo de duvida entre um sorriso ou uma lamentação sobre o ocorrido, algo frio e macio bate de leve em minhas costas. Quando viro, acompanhado do focinho de boas vindas, está o corpo lazarento e decrépito de quem um dia fora um cachorro.

Ele senta, cruzas suas patas. Carrega a serenidade de um deus ou de um diabo.

Patas descruzadas pra espantar os desconfortáveis mosquitos que rondam sua face.

Patas cruzadas novamente.

– Mais um dia de pelegagem? - perguntou ele, com os remelentos e velhos olhos fixados em mim.

– É, mais um dia de cão. - respondi.

– Você viu o imbecil que passou cantando Elton John? Quem canta Elton John pela manhã?

– Alguém que se sacrifica? Mas também há certa razão no que você diz. Esses dias têm sido mais pra A Hard Day’s Night, do Beatles. - insisti nas analogias.

– Sim, parecem. E por falar nela, você tem alguém te esperando em casa também?

– Não. Somente meu chuveiro quente e minha punheta.

– E o sexo imaginário que você faz é regado ao som de John Mayer ou Hanson?

– Não, não! Ouço Bonde do Tigrão: só as cachoooorras! Hanson e John Mayer são do caralho! Vá tomar no seu cu!

– Caralhos e cus. Vira sempre bagunça quando se juntam. –respondeu dando uma curta risada, o suficiente pra expor seus caninos sujos.

– Ah! Falando nisso, perdoe meu afobamento. Você prefere que te mandem tomar no cu ou no rabo? Já que você tem os dois.

– Gentileza sua perguntar. Use rabo, me sinto mais cachorro dessa forma. Diferente daquele lá. Quem ele pensa que é? Está escolhendo prostitutas na rua? - disse em tom de revolta, ao ver um Poodle debruçando-se sobre a janela do carro.

– Eu gosto desse tipo de cachorro. De certa forma, eles são um dos poucos motivos para que as pessoas andem com os vidros do carro abertos. Às vezes penso que compram carros com ar-condicionado não pelo conforto, mas pra se esconder das outras pessoas, da tristeza e pobreza de fora.

­– Foi bem idiota o que você disse. E quem compra um conversível?

– Eu não sei. Esses devem ser os bons de coração.

– Bondade pura.

Ele parou por um segundo, direcionou sua atenção para as folhas que caiam de uma árvore. Observava como se aquilo fosse um pequeno milagre. Depois, acrescentou:

– A gente se perdeu durante a jornada. Ficamos nas filas de seleção artificial do homem. Há uma grande ligação entre a desumanização e a domesticação. Ex-humanos à procura de ex-cachorros. Olha pra gente! Correndo atrás de bolinhas, se fingindo de morto, roendo ossos de plástico, dando a patinha, lambendo a cara das pessoas, fazendo exercícios, correndo uns contra os outros, ficando em hotéis, vestindo pijamas idiotas, procurando drogas, comendo rações multivitamínicas.

– Vocês também são chamados de filhos e de melhores amigos. - completei.

– Pra você ver. Que nível de socialização e interação uma pessoa teve pra chegar ao patético ponto de chamar um cachorro de filho ou considerá-lo seu melhor amigo.

– E não há nada de vantajoso nessa relação? Por exemplo, olha pra você, com a sua sarna e com larvas devorando seu traseiro. Poderia ter alguém que cuidasse...

– Pra quê? Provavelmente depois me colocaria uma coleira, me chamaria de Billy, Bob, Rex, postaria uma foto no Instagram e cortaria minhas bolas.

– Você é um sonhador. Só faltou estar com algum livro do Proudhon em patas.

– Essas são as vantagens do “abandono”, meu caro. Ao invés de ficar latindo atrás de portões, eu faço a crítica. Todos os cachorros precisam saber o quanto é bom rolar na carniça, comer o bagaço de frutas, tomar banho de rio, caçar quatis e revirar latas de lixo.

– Preferimos a obediência, docilidade e tolerância. – expliquei, tentando ingressar no ponto de vista.

– Exatamente. Responde com a voz sufocada, enquanto procura por pulgas em seu pelo. – Tudo mastigadinho na boquinha. – finalizou.

Uma cadela passa perto de nós, seguida por quatro cachorros. Ele levanta, alonga e chacoalha o corpo e segue em direção ao grupo.

– Até mais ou até nunca mais. Hora do bacanal!

– Nada de ter cachorros então? – pergunto.

– Isso mesmo. Nada de ter cachorros. Siga a dica daquela música e troque o seu cachorro por uma criança pobre.

– E gatos? Posso ter gatos?

– Não falo sobre gatos.

Minha condução chega e sigo meu caminho.

Cabeça baixa.

Pensando se é verdade, mentira ou exagero tudo o que ouvi.

Gostei do jeito dele. Gostei de seu romantismo.

Sei que não posso gostar muito. Se gostar muito, vou querer ele pra mim.

Vou cuidar dele.

Vou dar o nome do meu escritor favorito pra ele.

Vou postar fotos no Insta e Face.

Assim que começamos a trabalhar, o dono da chácara aparece desesperado, pede pra parar e nos dispensa.

Diz que seu cachorro está doente e o barulho causado pelas máquinas gerará mais stress.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 










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