Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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O quarto mandato de Daniel Ortega



      Desde 2006, Daniel Ortega está no poder na Nicarágua. Já havia presidido o país antes, entre 1984 e 1990. Esta sendo bastante falado na mídia internacional com a vitória em mais este mandato. Uma das coisas que faz com que muitos considerem um processo fraudulento é o fato de não haver mais de um candidato. Ocorre-se assim por posições do governo, bem como problemas políticos internos. Há certa oposição ao candidato, que a mantém mais afastada, ao mesmo tempo em que legitima seu governo perante a população.     

        Antes de 1979, a Nicarágua era uma ditadura. Vinha no estilo de governo, com tendências de direita, desde 1936, totalizando 43 anos seguidos. É uma das mais longas do continente, superior mesmo a de Alfredo Stroessner, ditador paraguaio que governou seu país por 36 anos. Quem mantinha o poder nicaraguense neste período era a família Somoza. Os membros alternavam entre si no poder, Anastásio Somoza Debayle foi seu último, deposto pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Durante este período, se consolidou a revolução sandinista no país, movimento que tinha algum viés socialista e que aliou o marxismo com o cristianismo da teologia da libertação, primeiro governo do mundo a ter feito assim.

       Ortega atuou em guerrilhas da revolução, para derrubar o governo dos Somoza. Chegou à presidência do país em 1984, ficando até 1990. Foi derrotado em algumas eleições então, até voltar a ser presidente em 2007. Desde então, vem se reelegendo, em processos questionados, sempre com votações superiores a 75% para ele. A Nicarágua permite reeleições constantes, mesmo para o executivo. Durante um bom tempo já fazendo assim, não recebia grandes críticas. Agora, em seu quarto mandato, está tendo sua eleição deslegitimada. A maioria dos países foi contra o resultado, enquanto alguns poucos se abstiveram, a Organização dos Estados Americanos (OEA) rejeitou os resultados. Ortega repudiou; o que significa movimentos para saída da OEA. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não apenas deixou de reconheceu a eleição de Ortega, como proibiu sua entrada em solo estadunidense. O Brasil também criticou a eleição, mas o PT e o PDT elogiaram. Algumas questões estão sendo levantadas.

       Tendo feito até mesmo alguma reforma agrária durante os anos 80, tem adotado políticas de bem estar social desde 2007. Promovia uma série de desenvolvimentos internos, fazendo com que muitas das estruturas e espaços do país fossem modernizadas. Também permitia que uma maior parcela da população da Nicarágua tivesse melhor acesso a serviços, saúde e educação. Apesar de seu jeito autoritário e possivelmente fraudulento para fazer política, gerava resultados efetivos para a população.

      Mesmo os sandinistas tendo ideais socialistas e o próprio Daniel Ortega ter sido guerrilheiro da FSLN, suas relações não fazem qualquer tipo de transição para um modelo de igualitarismo. Mesmo em seu começo de poder, terminou mantendo estruturas sociais, apenas aprimorando as possíveis. As complexas relações de poder e a própria sociedade de exploração latino-americana, herdada da colonização, tornam tudo muito particular e complexo. É o capitalismo, mas com alguns setores e características não tão iguais ao dos países mais ricos, centrais. Em 2018, as tensões entre o governo e a população aumentaram, com protestos contra Daniel. Principalmente devido a uma reforma da previdência. As violentas repressões feitas desgastaram um pouco a imagem e a confiança popular.

      Desde que reassumira o poder até esta reeleição, tinha forte apoio do setor empresarial do país, o qual via com bons olhos as propostas para modernização e investimentos no país, garantindo lucros e expansão a estes. Logo, o governo mantinha estabilidade e prosperidade capitalista, que respingava um pouco em sua população. Num país de relações políticas e democráticas tão difíceis, com longos períodos ditatoriais, servia ao menos para evitar a desigualdade e a exploração em seus piores estados. Devido à perda da imagem e da confiança, devido a tensões e problemas com o povo, pode ter sido por isso algum rompimento entre ambos. Também é curioso ver que, apenas em seu quarto mandato, aumenta a rejeição internacional e a crítica a suas eleições, todas tendo ocorrido do mesmo jeito. Estados Unidos antes disto, nada tão grande fizera contra Daniel Ortega, embora tenha se oposto à revolução sandinista na década de 1980.

      É muito provável que o presidente e a classe empresarial do país acabem fazendo as pazes e voltem a trabalhar juntos. A menos que problemas e diferenças na economia minem e deteriorem de fato as relações. Como aconteceu no Brasil, após a era Lula e o boom das commodities. Durante o tempo da Dilma, as relações entre as partes ruíram cada vez mais, resultando na queda da presidenta. Caso isso esteja acontecendo também na Nicarágua, acabará caindo, pois prejudica interesses. O Brasil está fazendo muitas críticas à eleição, principalmente o pré-candidato a presidência Sergio Moro, que reclamou do processo da prisão da oposição realizada por Ortega. Aparentemente, na Nicarágua, tem um juiz federal que prende os políticos opositores na época das eleições.

     Caso não ocorra, se manterá, conduzindo a política do instável país. A dificuldade de se estabilizar é visível e está atingindo níveis maiores, mas com muitos fatores juntos. Essencialmente, se ele for retirado, que elejam alguém também competente e capaz de melhorar a qualidade de vida nacional. Não sei quando conseguirá ter eleições mais regulares, haja vista que não possui grande histórico democrático. Enquanto não houver, que tenha, ao menos, eficiência governamental. Juntando suas partes e setores promovam o bem estar de seu povo, a função primordial dos governos.

 

 

 












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