Quinta-Feira, 29 de Fevereiro de 2024

Pedro Fagundes de Borba

O romantismo e os tipos brasileiros



  Em diversas áreas como na sociologia, antropologia, ciência política, cultura, representação e outros um jeito clássico de pensar o Brasil são nos seus chamados tipos brasileiros. Ou seja, os hábitos, costumes e culturas brasileiras em suas diversas áreas, com suas diferenças locais e regionais. Isto teve berço na literatura, durante o período romântico e, de lá para cá, se tornou transversal na arte e nas ciências sociais brasileiras. Surgida no período da Independência, tinha como base criar uma Independência estética, para se unir com a Política, servindo como representação e louvação da última, dando personalidade, identidade e pessoas nacionais.

   Neste período e contexto, motivado por tudo isto, também como parte de uma agenda política, entra uma figura ainda bastante importante e influente para o Brasil, ainda que indiretamente: José de Alencar. O deputado e romancista cearense, embora tenha vários problemas, continua influenciando fortemente a estética e o pensamento brasileiro, mesmo quando autores posteriores tenham trazido novos aspectos e temas relacionados aos tipos sociais e culturais trazidos por Alencar.

     O que fica visível nos tipos sociais literariezados por José De Alencar, entre os quais podem ser citados os gaúchos, os caipiras, os sertanejos e os índios. Tipos que, durante o período eram figuras regionais brasileiras, que geravam uma ideia de Brasil e de brasileiros, sendo eles desta forma. Também em seus romances urbanos, tratados sem a sombra regionalista ou dos tipos, falou um tanto do Brasil ainda que se imaginasse falando de um urbanismo universal. O que ele fez com tais tipos em sua literatura, isto sim pode ser encarado de outras formas, pois envolve diretamente o tratamento e construção de personagens feitas pelo autor.

     Os quais, em sua essência, tenta imitar de algum jeito os parâmetros e conceitos românticos europeus, como o francês, alemão, britânico ou português. Colocados mesmo de maneira bastante abrupta e artificial, sem um compromisso com a verdade dos tipos brasileiros, mas apenas para fins estéticos, criação de uma estética nacional. Especialmente nesta questão, na época e depois, José de Alencar foi bastante criticado pelas suas representações. Justamente por esta falta de realismo.

    Outra falta grave de José de Alencar, certamente muito motivada por sua defesa da escravidão, foi não ter criado tipos sociais negros, ou explorado e falado do povo negro do Brasil. Não o colocou como um tipo e uma figura brasileira, diferente do que tinha feito com outros. Uma lacuna aberta até hoje, pois nenhum autor brasileiro conseguiu criar um tipo social negro, ou falar destes de maneira cultural profunda, dando uma estética, uma história e uma personalidade social e coletiva. Tal lacuna acaba tornando o tipo negro ainda bastante indefinido esteticamente, sendo muito mais representado por estereótipos.

     Por estes problemas, autores posteriores e mesmo contemporâneos iriam rever e construir estes mesmos tipos sociais em formas diferentes, com outros pensamentos e dimensões. Normalmente de maneira realista, mostrando sofrimentos e dificuldades e de acordo o Brasil, as realidades e condições brasileiras. Ainda que superem Alencar em vários aspectos e sentidos, terminando voltando para os tipos criados, para as bases lançadas pelo autor. O que mostra a influência alencariana ainda existente, dando alguns aspectos para a estética e estudos nacionais. A semente romântica ainda é fortemente presente no pensamento, levando a um entendimento a partir dela. O Brasil ainda se entende por seus tipos, catalogados e levantados por Alencar na estética vinda da Independência, de uma independência que mostrasse os tipos nacionais.   

 











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