Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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Os humanos e seus destinos



      O protagonista do conto "O enfermeiro", de Machado de Assis, Procópio José Gomes Valongo, é um homem bastante interesseiro em um mundo que é mais. Suas atitudes, enquanto são reprováveis, acontecem em um contexto alheio a isto, pois toda a rede de fatos opera para que ocorram. Atua em bem próprio, e é recompensado pelas cirscustâncias em que assim age. 

      Foi contratado como enfermeiro por um coronel que era rabugento e mau. Procópio rapidamente se farta, por causa da característica má. Já perto de morrer, o que era certo, o enfermo fez testamento. Procópio queria ir embora. Pediram para que ficasse, aceitou mais um mês. Uma noite o velho dormia. Enquanto esperava meia noite para lhe dar o remédio, o enfermeiro caiu no sono. O doente arremessou uma moringa contra ele. Irado, foi para cima e acabou matando seu paciente. Em sua mente, ouvia o brado de assassino.  

       Tendo medo do crime, viu o cadáver, sentiu e chamou um escravo, dizer que o patrão havia amanhecido morto. Sua primeira ideia foi sair dali. Andou para a rua e ali percebeu que seria, de fato, impossível ocultar o crime. Voltou para o Rio de Janeiro. Suas primeiras noites foram aflitas, medo de ser descoberto. Faz alguns elogios ao morto e lhe mandou rezar uma missa na igreja do Sacramento. Assistiu sozinho.

       Recebe, tempos depois, uma carta do vigário, que dizia terem encontrado o testamento do coronel. Procópio era o herdeiro universal. Não acreditou. Chegou a cogitar recusar. Voltou para a vila. Recebido com parabéns, elogiado principalmente por ter lidado com dedicação e paciência. No início do processo de inventário, falava muitas vezes no coronel. Com o tempo, foi perdendo as neblinas do crime. Recebeu a herança, converteu em títulos e dinheiro. Teve a ideia de transformar em donativos, que foi se dissipando gradativamente. Cada vez mais, os pavores foram se diluindo.  

      Procópio enriqueceu de maneira ilicitamente lícita. Sendo empregado de um homem excêntrico, e cruel, sofreu bastante, fugiu e acabou ficando com o que era dele. Se, em termos estabelecidos, sua moral agiu de maneira corrompida, por outro, o meio em que vivia estava muito pior, respeitando ainda menos as ideias morais estabelecidas. Pode-se dizer que Procópio, ainda que tenha atitudes imorais, em parte pelo meio em que estava. Foi vitorioso ali. O que a ninguém torna bom. 

     












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