Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Se eu não voltar, apenas dance



Sempre fui boa em coreografar partidas. As bases da dança encerram, com felicidade, os percursos sabotados pelo caminho. Pelo balanço do corpo, adaptamos os cenários e ressignificamos os ritmos. À semelhança de uma orquestra, a coordenação de cada membro equivale a uma nota distinta, pronta a tirar o foco daquela que veio antes, ou então para coparticipar em protagonismo.

Elis sempre me disse que, em caso de ausência prolongada, o melhor a se fazer é dançar. Despachar velhos amores e deixar algumas saudades apenas para domingos. A gravidade de calendarizar as sensações diz respeito, contudo, à repetição dos dias. Faz um bom tempo em que tenho vivido às margens de domingos insólitos. Anteontem e ontem, por exemplo, foram domingos intermináveis.

É que há saudades que saem tão bem em fotos. Há dores que descem tão redondas pelos copos. Outro dia, estava lendo uma placa promíscua de bar, que relutava em dizer que justamente quem eu queria estava lá. Impossível. As rimas, nessas horas, descem arranhadas. Poesia que dá dor de garganta, mas que é, ao mesmo tempo, anestésica para a alma. Elis já foi meu remédio, minha cura e, hoje, é meu domingo.

Antes de partir, coloquei na primeira gaveta de seu armário um CD gravado para o caso de eu não voltar. Com algumas faixas em branco, quis propor que dançasse o silêncio. Com outras arranhadas, que se balançasse ao ritmo das inquietações da mente. A ausência é uma presença insuportável por não estar. E continuar sempre não estando.

Na fila do supermercado, bastará a ameaça de qualquer Caetano para que o amor dê bandeira pelas prateleiras, especialmente aquelas que ficam ao lado dos caixas. É que tem gente que trata o amor como mero impulso de fim de tarde esperando a sua vez de ser atendido. O amor torna-se o bombom comido enquanto se aguarda. Disfarce para a fome. Pobres sujeitos que não entendem nada das profundezas dos outros. Agem sorrateiros à perspicácia das construções, entupindo de tralha o que nunca pediu nada em troca.

Se eu não voltar, apenas dance. Procure no alto do meu guarda-roupa uma velha caixa de poemas escritos e jogue todos eles pela janela. Enquanto isso, abra o velho whisky guardado em cima da geladeira, brindando com um cigarro demorado o ritmo que cada cheiro guardado na lembrança é capaz de dar aos momentos. Às sensações. Também não espere ameaças de despedida. Dificilmente eu vou embora. Mas, quando vou, é uma vez só.

 

THIANE ÁVILA.

 












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