Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Pedro Fagundes de Borba

Estudo ciências sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos; escrevo para portais; me chamo Pedro Fagundes Borba.

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Vivas caracterizações



 A vida sempre esconde muitas contradições e características. As pessoas, por seus jeitos, profundidades e constituições, tomam maneiras de ser em várias circunstâncias, carregando consigo situações contraditórias, coerentes com suas maneiras de serem, seus profundos seres. Olhar estes pontos é rica fonte para se pensar as pessoas e o que é ser humano. Nelson Rodrigues, o grande dramaturgo brasileiro, também bom prosador, trouxe com força estas características, neste caso, brasileiras. E especialmente cariocas. No caso de seu conto “Infidelidades”, parte de sua coluna “A vida como ela é”, mostra os acontecimentos e sentimentos em torno das questões matrimoniais, seus pactos, características e significados, como cada reagiu, sendo os personagens que eram Orozimbo, Eusébio e Elvira.

  Começou com a pergunta afirmativa de que ele sabia que era do peito. Quis que ele fosse adiante. Falou, então que ocorreram alguns rumores desagradáveis. Disse para falar. Perguntou se ele tinha confiança na mulher dele. Os olhos frios de Orozimbo lampejaram. Continuando, contou que a mulher de Orozimbo vinha tendo um caso, assim e assim.

  Então se virou e disse que Euzébio estava fazendo uma acusação muito séria, seriíssima, se teria ele prova do que falava. Tinha. Foi confirmando. Perguntou então se tinha a visto trair. Não, respondeu, mas todo mundo falava. Se não viu, que se colocasse dali pra fora, antes que lhe partisse a cara, aquele cachorro indecente, falou Orozimbo.

    Parecia o fim de uma amizade de vinte e tantos anos. Amizade parecia cada vez mais intensa e perfeita. Quando Orozimbo foi namorar Elvira, foi pedir o conselho de Eusébio. Sabendo que ela namorara quase o bairro inteiro, e vendo o amigo apaixonado, sugeriu apenas que abrisse o olho. Seis meses depois, se casaram. No civil e na sacristia, Eusébio esteve presente. No final, soprou ao ouvido de Elvira que arranjara o melhor marido do mundo. Alegremente respondeu ela que só vendo.

    Então, Eusébio passou a frequentar diariamente a casa do casal, uma época jantando de domingo a domingo, alguns vizinhos maliciando tamanha amizade. Um dia Elvira, em sua inconveniência simpática, falou que, por ele jantar sempre ali, parecia que tinha dois maridos. Orozimbo, então, estourou numa gargalhada incoercível. Eusébio riu também, mas com certo constrangimento, falando que era uma piada infame. Ela continuava, numa festiva irresponsabilidade, dizendo que ficara vermelhinho.

     Foram acontecendo para Eusébio situações que lhe faziam pensar. Viu que entrava na casa com liberdade de marido. Via malícia em tudo, conforme as situações iam passando. Uma tarde chegou muito antes do amigo. Falou com Elvira que era uma situação meio pau, que não podia estar ali sozinho. Não era direito. Não era certo. Ela fez um escândalo. Disse que não amolasse. O que não estava direito? Ele comentou a vizinhança. Nada era mais delicado que a reputação de uma mulher. Teimava que tinha que espaçar suas vistas. Foram discutindo, irredutíveis em suas ideias. Elvira foi categórica. A vizinhança que fosse para o diabo. Não tinha de dar satisfação sobre sua vida para ninguém, ninguém.

     Podendo espaçar as visitas, continuou frequentando a casa dos dois. Elvira sempre falando como segundo marido. Teve ela um filho e depois outro. Eusébio padrinho do primeiro, um tal de Linhares foi o padrinho do segundo. Então teve a já referida noite contada e a expulsão. Orozimbo entrou amargo e envelhecido. A mulher não ouviu, fez um comentário sobre como ninguém prestava, ninguém valia nada. Era um caso sério.

    No dia seguinte, Elvira quis saber sobre Eusébio, perguntando a Orozimbo. Morreu respondeu. Como era sem graça, ela retrucou. Ficaram uns quatro dias sem falar nele. Quis ver Eusébio, indo até seu emprego no dia seguinte. Ele fugindo, acabaram conversando e ele falou sobre a noite. Perguntou ela se ele tivesse acreditado, tivesse dado um tiro nela. Pensando que poderia ter sido o causador da morte dela, tive uma crise súbita e irresistível. Não queria que ela morresse, não queria, exclamava. Com uma sofrida ternura, o corredor deserto, beijou-a em delírio. Entre um e outro, dizia ser um canalha.

   Passaram a se encontrar em um apartamento de Copacabana. Amor sem felicidades. Entre beijos mortais, comentava que era o último dos homens e ela das mulheres. Ela pedia desaforo.

   Orozimbo foi então, um dia, ao escritório procurá-la. Sóbrio e definitivo. Disse que sabia de tudo. Só não a matava porque a mãe de seus filhos era sagrada. Euzébio se disse às ordens. Só não o matava porque ia atingir a mãe dos filhos. Se abaixando cordialmente, falou para o antigo amigo que não era o único traído, pois essa o traía com o Linhares. Retirou-se, vingado. Sozinho no corredor, Eusébio caiu de joelhos. As duas mão mergulhando o rosto, soluçava, como uma criança.

   Os personagens eram completos de maneira muito viva, carregando características várias, tendo alguns comportamentos em um contexto, outros opostos em outro, fazendo com que fossem eles paradoxalmente, algo que lhes fazia seres humanos vivos, enquanto personagens literários. Suas ideias e jeitos combinando nos momentos em que se contradiziam, compondo um forte pano da vida prática, as contradições e hipocrisias desta. Nelson Rodrigues, forte e autêntico demais em suas obras, fora censurado pela ditadura cujo golpe ele apoiara. Dentro de suas próprias contradições, fez caminhos literários para entender a realidade prática do brasileiro, focando quase sempre no Rio de Janeiro, vivendo-as também enquanto existia. Mostrou estas características vivendo com elas.












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